Saturday, August 18, 2007

Os texto que seguirão daqui para frente se referem aos fichamentos escritos por mim durante a disciplina: "Dinâmica da agricultura familiar e do mundo rural", ministrada pelo Professor Dr. Flávio Sacco dos Anjos
Maciel


Hai Kai: RESPOSTA

Antropocêntrico?
Uma ova! Porém...
De bem com a vida.

Wednesday, August 15, 2007

Hoje?

"Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se
na beira do poço da sombra
e pescar luz caída com paciência."

Pablo Neruda - "Últimos Poemas"

Tuesday, August 07, 2007

A perfeição é uma utopia. Entretanto, a mediocridade é um fato corriqueiro.
Encare a utopia, mesmo nas pequenas ações, como algo a ser conquistado e estaremos caminhando rumo a nossa realização e à construção de um mundo melhor. Maciel em 07.08.2007

Sunday, August 05, 2007

Hai Kai

ESTUDO
Noite à dentro
Mergulho no silêncio
Desvendando a vida

Saturday, August 04, 2007

O que é uma tese?
Uma tese não passa de um arranjo lógico de palavras, de maneira a se buscar entender fragmentos da atividade humana. O poeta organiza palavras de uma forma a sensibilizar o coração. Eu, como pesquisador das ciências agrárias, procuro, ao juntar palavras, desvendar os mistérios e necessidades do povo camponês de meu País. No fundo, caminho no sentido de, como já dizia Bertold Brecht, "aliviar o drama da existência humana". Maciel
Texto 19 – ANJOS, F. S. dos; CALDAS, N. V. Pluriatividade e Ruralidade: falsas premissas e falsos dilemas. In: O novo rural brasileiro: novas ruralidades e urbanização. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2004. p. 72-105.

No contraponto das teses que apontavam para um índice de urbanização semelhante aos países desenvolvidos, a partir de um “paradigma da modernização”, onde o “ocaso dos campos” era algo inevitável, os autores recuperaram o processo de discussão ocorrido desde os anos 80, em relação à visão da ruralidade. Nesse aspecto, tornava-se necessário redefinir o papel dos novos atores no campo em diferentes contextos tanto no Brasil como no exterior, além da descoberta da importância das atividades não agrícolas no meio rural. Para isso, eles se propõem a mostrar a trajetória da construção do conceito de “pluriatividade” e as diferentes teses muitas das quais conflitivas e equivocadas. Por fim, os obstáculos que este novo enfoque de desenvolvimento rural tem à luz da legislação brasileira. Como esforço central dos autores pode-se dizer que é a identificação dos fatos que fazem surgir a pluriatividade e as características do processo de transformação rural que a pluriatividade determina.
Como “pluriatividade” é definido: “a atribuição de novos papéis aos territórios no contexto de uma sociedade pós-industrial, plenamente abastecida de alimentos e matérias primas, e que simultaneamente reivindica um melhor uso dos recursos econômicos, ecológicos e sociais”. Os autores mostram como a “agricultura de tempo parcial”, nos anos 70, considerada como um fenômeno de transição para a modernidade, passa a constituir como pauta de reivindicação de entidades como a Modef e a CNSTP na França e a Confcoltivatori na Itália. Nesse aspecto, percebe-se, primeiramente nos países desenvolvidos, a transição do paradigma da modernização produtivista para o paradigma da multifuncionalidade.
No Brasil a questão da pluriatividade começa a partir da constatação de que o emprego rural não-agrícola cresce mais do que o emprego agrícola. Entretanto estes estudos ficam restritos à região sul. Surge o “Projeto Rurbano” que reafirma o “novo rural brasileiro” entendido como a ampliação das atividades não-agrícolas no campo e da pluriatividade praticada pelos residentes no meio rural e a constatação de que o fator mais importante para segurar a população no meio rural durante a década de 90 foram as atividades não agrícolas.
Os autores apresentam as falsas teses sobre a pluriatividade.
- a “multiocupação” causada pelo desemprego estrutural e a crise da sociedade pós-industrial produziram situações de “auto-emprego”;
- A “desdiferenciação” que é o caso de agricultores patronais que exercem outras funções não agrícolas ou auferirem rendas provenientes de outras atividades (pecuária, por exemplo);
- o vínculo da “pluriatividade” na questão da agricultura familiar aos processos de industrialização regional que recruta grandes contingentes de mão-de-obra das atividades agrícolas.
Por isso, a idéia da “pluriatividade” deve superar a questão da industrialização regional e reconhecer outras atividades como o turismo rural, o lazer, a indústria doméstica rural, ou até a prestação de serviços.
Os autores nos mostram que até o final dos anos 70 o conceito de pluriatividade foi utilizado associado às explorações agrícolas decadentes, sem condições de participar do circuito tecnológico moderno. A partir daí, nos mostram as conclusões do “Arkleton Project” que apresenta a pluriatividade como instrumento que permite compreender as transformações da estrutura agrária européia sob um determinado contexto social e econômico. Apresentam o conceito de Uttiz de “estilos de vida” como recurso para compreender o processo familiar de tomada de decisão em função de determinações externas complexas, que permite entender como explorações pluriativas caminham para uma produção “monoativa” e vice-versa. Com esse referencial teórico, os autores estudam o comportamento social de produtores de arroz no litoral sul de Santa Catarina no que diz respeito à dinâmica da participação da força de trabalho e a influência da presença de uma forte atividade industrial têxtil, como força exógena à agricultura familiar, mas que influencia na presença da mão de obre familiar nas atividades essencialmente agrícolas, em especial as mulheres e os jovens.
Sob a luz do materialismo histórico os autores justificam a pertinência da pluriatividade e da diversificação no atual modelo agrário e agrícola contemporâneo e a própria “desdiferenciação” como forma de sustentabilidade dessa atividade produtiva.
A crítica à teoria do “refúgio” é contestada sob a argumentação do custo de oportunidade do fator trabalho que permite ao agricultor familiar ir atrás de melhores oportunidades de aumento da receita familiar em atividades não essencialmente agrícolas. Os autores concluem dizendo que a “desagrarização” não significa “desruralização”.
Para concluir, discutem o papel da reforma agrária no Brasil e as posições que consideram a sua vocação strictamente agrícola. Para os autores, a pluriatividade é um desafio que pode contribuir no processo de desenvolvimento territorial =FIM=
Texto 18 – ABRAMOVAY, Ricardo. . Texto para discussão no 72, Brasília: IPEA.31 p, 1998

Na introdução, Abramovay inicia sua argumentação na antítese do pensamento que associa o meio rural à idéia de que nele só permanece os que não se aventuram nas cidades e que seu declínio é, apenas, uma questão de tempo. Posição essa que o autor vai desenvolver à seguir e que considera as experiências de vários países desenvolvidos. Que a ruralidade não é obstáculo ao desenvolvimento rural, e sim, a fraca densidade de população e a distância. Que as regiões rurais dinâmicas devam ser exemplo para as regiões atrasadas e que estas, dinâmicas, possuem um modelo mais realista do que as urbanas.
O autor apresenta três formas de delimitação do rural, e suas restrições:
a) A delimitação administrativa que é utilizada em diversos países da América Latina e que tem como restrições:
- a concentração das decisões no nível dos poderes públicos;
- os aglomerados servidos pelo poder público passam a ser considerados “urbanos” e;
- a definição do rural pela “carência”.
b) A forma onde o peso econômico se ancora na ocupação da mão-de-obra agrícola.
- esse método poderia abolir o espaço rural dos países desenvolvidos pela importância do trabalho não agrícola.
c) o critério do patamar populacional utilizado em alguns países da Europa.
- A dificuldade no Brasil estaria posta na definição do “quanto” de população se caracterizaria como rural, uma vez que os limites internacionais são variáveis; com isso a comparação de informações fica comprometida e, por fim, que este critério não permite uma abordagem regional para a questão.
Abramovay insiste que “ruralidade” é um conceito territorial e não setorial e cita a formulação da FAO/DAS da importância das atividades econômicas múltiplas (não agrícolas) e que, por sua vez, também existem propriedades agrícolas no perímetro urbano, provando que o ideal seria uma definição espacial. Daí que o desenvolvimento rural é um conceito espacial e multissetorial e a agricultura é, apenas, parte dele.
O autor, citando Galston e Baehler, recupera o sentido da relação da ruralidade com a natureza. Que essa relação nos EUA é, acima de tudo, uma fonte de geração de renda. Cita a dificuldade de expectativa no incremento de preços de commodities agrícolas e as vantagens da relação com a natureza, que o autor apresenta como “valores de amenidades” e também os três “r”: recreation, retirement e residences. E que existe na França uma maioria que defende que o rural é mais uma paisagem do que um espaço de produção. Conclui esse argumento dizendo que nessa relação com a natureza (como um valor a ser preservado) ganham as forças políticas e as práticas produtivas voltadas para a exploração sustentável da biodiversidade. Dessa forma, que a definição de indicadores de desenvolvimento rural deve incluir essa relação entre sociedade e natureza.
Aborda a questão da dispersão populacional e as formas relacionais de “interconhecimento” das pessoas que vivem no rural diferentemente do modo vivendis das cidades. Cita a noção de pertencimento e a formação de uma identidade (communal), cultural. Mostra também diferentes representações que os franceses construíram sobre o urbano (progresso, trabalho, medo e solidão) e o rural (beleza, saúde, igualdade, aposentadoria e tranqüilidade).
Apresenta três métodos de definição de rural que do ponto de vista da importância rurais não densamente povoadas e o tipo de ralação construída com as cidades: O caso Americano (ERS/USDA - o continuum), o da França (Insee/Inra) e do OCDE (baseado na questão da territorialidade e da pluriatividade). Nas conclusões do trabalho, Abramovay constata que as áreas rurais, globalmente, concentram os piores indicadores de desenvolvimento. Propõe que, em função da magnitude da população rural (no Brasil e em diversos países desenvolvidos) se busque construir uma aplicação específica para a noção de desenvolvimento, em função das imensas possibilidades existentes no meio rural (oportunidade de criação de postos de trabalho, em especial). Que a ruralidade não é uma etapa a ser superada, e sim, valorizada para as sociedades contemporâneas. Que a importância da agricultura para o Brasil não impeça a definição territorial do desenvolvimento e do meio rural, considerando o capital social do desenvolvimento dos territórios, tornando-se mais que necessário o abandono da identificação automática entre rural e áreas destinadas ao esvaziamento social, cultural e demográfico. Que o importante não é saber se um distrito censitário é rural ou urbano e sim, a dinâmica da região, sem que a sua aglomeração urbana seja isolada de seu entorno.
Texto 17: WADA, Haruki. Marx y la Rusia revolucionaria

Introdução
Haruki Wada, pesquisador da Universidade de Tóquio, publicou este artigo em tela no ano de 1975. Nele o autor buscou, a partir de documentos da última fase da vida de Marx, encontrar pista sobre algumas visões do autor de “O Capital” sobre o campesinato que poderiam modificar a histórica polêmica entre marxistas e populistas na Rússia durante todo o século XIX. Essa reflexão contribuiria também, segundo Wada, para se entender as contradições do processo de industrialização que passou a sociedade japonesa. O caminho adotado foi a recuperação de cartas e rascunhos, em especial a carta que seria enviada ao editor do jornal Otechesvennye Zapiske e seus rascunhos e as cartas e rascunhos a Zasulich. Quase todas as referências ao processo russo encontram-se sob a forma de cartas e rascunhos. Por isso, fica difícil compreender qual foi a verdadeira opinião de Marx sobre a Rússia.
As motivações para este tipo de pesquisa:
§ Compreender a verdadeira história do pensamento social russo;
§ O lugar de Plekanov com sua versão de “marxismo” na Rússia;
§ Descobrir uma chave para compreensão da estrutura das economias capitalistas subdesenvolvidas;
§ Um esforço para reconsiderar o populismo russo sobre as bases das semelhanças entre as idéias de Marx sobre a Rússia em seus últimos anos de vida e as do populismo;
§ Um crescente interesse pelas comunas camponesas russas e;
§ Uma intenção por descobrir uma receita para resgatar a altamente industrializada sociedade Japonesa das profundidades de suas contradições

Marx morre e a carta a Zapiski não foi enviada. Engels tenta sua publicação em 1884, sem êxito, sendo publicada apenas em 86, o que causa reação de populistas como Gleb Uspenski, em “Amarga censura”.
Em 1890, Lênin, Plekanov e outros marxistas, visando não fortalecer as teses populistas afirmam que a carta não possui nenhum conteúdo expressivo que apontasse caminhos para a revolução russa.
Os rascunho só foram descobertos em 1911 por Ryazanov e Bujarin. Em 1923 foi redescoberta e publicada por Nikolaevsky, por um menchevique exilado. Ryazanov a publica com os rascunhos.
Os socialista revolucionários deram boas vindas a este material no resgate ao que havia sido desenvolvido pelos populistas russos e, também, que o programa descrito na carta era exatamente a base da teoria socialista revolucionária a respeito da revolução campesina, as exigências agrárias e as técnicas rurais.
Sujanov, na União Soviética, 1926 deu apoio à carta dizendo que “a comuna rural fui utilizada como meio para promover a coletivização da agricultura”. Historiadores não se manifestaram
1929, com a coletivização, a carta serve de apoio teórico (M. Potash, que era leninista). Seguem debates polarizados com A. Ryndich.

I – A questão com os populistas
Marx e sua posição radical contra o populismo russo em O Capital, Vol 1 de 1867. Pancada de Marx em Herzen que dizia que a comuna rural russa era exclusiva do mundo eslavo
Fev 1870 Marx estuda Russo influência de Danielson que dá o livro Situação da classe trabalhadora na Rússia, do populista Bervi-Flerovski – livre do otimismo russo (da contaminação) de Herzen – inevitabilidade da revolução russa.
Utin (oposição a Bakunin e Herzen) pede a Marx que o apresente na I Internacional, ele tinha posição populista em relação à comuna campesina
“Asnos” e “de todo esse lixo se deduz que a propriedade comunal russa é compatível com a barbárie russa, mas não com a civilização burguesa”.
Marx começa a mudar de idéia com German Lopatin (jul 1870), que pede p traduzir em russo Capital.
Lopatin elogia Chernyshevski - comentários sobre Princípios da Economia Política em Stuart Mill. Verdadeiro ponto de inflexão de Marx. Começa a ver: populismo e comuna em diferente perspectiva.
Marx escreve a Elizabeta Tomanovskaya, membro da seção russa da I Internacional. Posição de Marx era a de que a probabilidade da comuna, desafortunadamente sua dissolução e transformação em pequenas propriedades, em função das políticas do Governo (abolição da garantia coletiva)
Elizabeta pede para Marx ler (?) Haxthausen, citado por Chernyshevski, com dados sobre a comuna. “Alternativas”: a comuna iria desaparecer ou sobreviver no eixo da regeneração social da Rússia?
Após 1872, Marx volta à teoria (Comuna de Paris e Questões na I Internacional)
Inicia a 2 ed Alemã do Capital Vol 1., nessa versão, poucas correções, retira a (!) e a chacota a Herzen a seu “comunismo ruso”. Faz elogios a Chernyshevski que escreve a Tese: “que em função do desenvolvimento Ocidental seria possível que a Rússia saltasse da propriedade comunal para o socialismo”.
Marx, após essa tese, pede a Danielson informações sobre a origem das comunas. Dois livros:Materiales sobre lãs Arteles e um livro de Skaldin

II
Na edição francesa Marx muda o texto da versão alemã: (...) “Somente na Inglaterra tem uma forma clássica” por “(...) mas em todos os demais países da Europa ocidental estão atravessando o mesmo movimento” (mesmo com as comunas!).
Pode-se entender que Marx deixava aberta a hipótese de que na Europa Oriental/Rússia poderia ter outra via de evolução.
Nesse momento Engels polemiza com Pyotr Trachev sobre o livreto “Tarefas da propaganda revolucionária na Rússia” – chamou-o de “estudante novato”. A resposta foi a carta aberta ao Sr. Engels, Zurich, 1874. Marx comentou que Bakunin estava por trás. Porém, Marx percebeu, entretanto, que Trachev tinha razão e conhecia a realidade russa “a revolução não poderia esperar!”
Marx via o avanço (lento) do desenvolvimento econômico, na mesma direção da Europa Ocidental, e o início da desintegração das comunas (via formação de diferentes classes Kulacs) à o bem agora!

Engels, com Marx por trás, escreveu que Trachev não compreendeu que o socialismo só é possível quando forças sociais de produção haviam alcançado certo nível de desenvolvimento. Mostra a situação de proteção por parte do Estado aos burgueses e a especulação que os Kulacs imprimem aos camponeses. (Fonte de dados Skaldin).

Engels continua seu ataque a Trachev de que na Rússia é possível uma revolução socialista por que os russos são assi por dizer, o povo eleito do socialismo e tem artel (cooperativas) e propriedades coletivas da terra. Engels retruca dizendo que as cooperativas russas servem mais ao K do que aos trabalhadores. D deveria elevar-se ao menos ao nível das organizações cooperativas da Europa Ocidental. Que as Artel seria destruída pela indústria em grande escala a menos que siga se desenvolvendo (influência de Marx).

Engels acreditava que a única saída para as comunas seria a revolução proletária na Europa Ocidental. Como os proprietários camponeses russos estariam mais próximos do socialismo do que os trabalhadores sem propriedade na Europa ocidental? (Posição de Trachev)

Dois caminhos de desenvolvimento que Marx e Engels percebiam:
- a via do desenvolvimento capitalista ou,
- o caminho que levava diretamente a comuna rural ao socialismo.

As diferenças teóricas foram diminuindo...

III – Cartas a Mijailovski
A Guerra contra a Turquia e as perspectivas de derrota
Com a derrota o processo revolucionário em curso
Conversas com o Prof. Kovalevsky que estava havendo uma discussão em cima do Capital
Mijailovski critica o texto da acumulação primitiva como processo de um “progresso universal”. Ele considerava que Marx afirmava que todos os países devem experimentar exatamente o mesmo processo de expropriação do campesinato que havia sido sucedido na Inglaterra.

A primeira parte da carta de Marx – evitando falar da revolução e sem citar nomes
Questões já resolvidas: a critica em Herzen (comunismo russo) e elogios a Chernyshevski, como grande pesquisador e crítico russo. Compartilhamento das posições populistas de Chernyshevski, além disso, Marx fez estudos em língua russa e chegou a seguinte conclusão:
“Se a Rússia segue por um caminho que vem seguindo desde 1871, perderá a melhor oportunidade que a história há brindado jamais a uma nação, e padecerá as fatais desgraças do desenvolvimento capitalista”. Equivale a um chamamento ao povo Russo para uma revolução!
A segunda parta da carta (que não foi enviada)
Marx explicita o caráter localizado da acumulação primitiva na Europa Ocidental e que havia corrigido esse capítulo em 1875.
a) caso a Rússia tentasse se converter numa nação capitalista como as da Europa Ocidental, teria que converter grande parte dos campesinos em proletários e, logo,
b) teria que submeter-se às leis implacáveis deste sistema, como outras nações ocidentais. (posição diferente do Prefácio do Capital (ver texto marcado da página 83)

IV - Cartas para Zasulich (em 1877 ou 1878?)
Rússia vence a guerra contra a Turquia e aumenta o poder Czarista e se ampliam as lutas com os Populista revolucionários. Em fevereiro de 79 assassinato do Governador Kropótkin de Jarkov. No ano novo de 1880 Engels escreve para Wilhem Liebknecht, do Comitê da Vontade do Povo, refletindo sobre a Revolução Russa que se aproximava. Marx, por sua vez, se prestava a ajudar Leo Hartman
Hartman comunica N. Morozov que Marx estava lendo e apoiando o Programa dos terroristas russos, mas que não se pronunciaria entendendo que seu programa era diferente dos socialistas. Marx criticava o grupo Reparto Negro, de Plejanov, refugiados em Genebra (comunismo-anárquico-ateu).
Marx recebe em novembro de 80, mensagem do “Comitê do Partido Social Revolucionário Russo” e passa a não se referir mais à “Partido Terrorista” p.86
Em 1879 Marx leu: A propriedade comunal da terra: as causas, processos e conseqüências de sua dissolução, de KOVALEVSKI, M.M. que atribui aos ingleses a responsabilidade da dissolução da propriedade comunal da terra. Marx acrescenta a responsabilidade do Progresso econômico e da responsabilidade dos ingleses com ativos nessa destruição. Além disso, ele deixou notas muito detalhadas.
Na Coleção de Materiais para estudos da comunidade rural (Livre Sociedade Econômica e Associação Russa de Geografia) escreve: “A conseqüência da propriedade comunal da terra é esplêndida!”. No artigo de Semenov esta escrito que os camponeses russos praticam uma forma coletiva de exploração dos prados e que distribuem por igual a erva sagrada. Marx comenta isso na carta a Zasulich

Danielson em 17 de fevereiro escreve sobre as condições de pesadas cargas de impostos, vendiam os alimentos da subsistência e que os trens e os bancos estavam acelerando essas transações de grãos, empobrecendo os camponeses.
Famosa carta resposta de 10 de abril de 1879 para Danielson, onde Marx vincula tudo isto como um fenômeno característico de desenvolvimento capitalista nos países atrasados (estrutura específica para o capitalismo atrasado). Marx deve muito a ele, mas ainda não aceita a tese do fim da servidão e da crise absoluta do capitalismo russo.

Zasulich escreve em 16 de fevereiro solicitando parecer sobre os destinos da comuna rural. Segundo L. Deich entre 1880 e 1881, debate entorno do artigo de V.P.Vornontsov que a Rússia carecia das bases para um desenvolvimento capitalista e pede ajuda, no artigo, para Marx. Zasulich entretanto pede a Marx dizendo que seus “discípulos prediletos” diziam que a comuna russa era uma “forma arcaica” condenada à ruína. Pede que Marx escreva em nome do Grupo Reparto Negro. Marx, entretanto, baseia a resposta nas teses do “Vontade do povo”.

Os rascunhos da carta de Zasulich:
No Segundo rascunho: Que a acumulação primitiva não se aplica na Rússia; “circunstâncias históricas” que decidem os destinos da comuna rural e o seu lugar na cadeia histórica das organizações arcaicas da sociedade e suas formas alternativas de desenvolvimento. Termina dizendo sobre os pontos importantes que o momento afeta à comuna rural.

No primeiro rascunho:
Duas características principais da comuna agrária (dualismo): o coletivo e o individualismo. Que podem ser o germe de sua dissolução e ao mesmo tempo pode permitir que o aspecto da comuna que favorece o coletivismo supere o aspecto que favorece a propriedade privada.
A argumentação sobre o caso Russo resumido em três pontos
1- As comunas rurais se preservaram numa escala nacional;
2- Características estruturais:
a) a propriedade comunal da terra oferece à comuna uma base natural para a produção e apropriação coletiva;
b) a familiaridade dos camponeses com o “artel” facilitaria a transição da agricultura de parcela individual para coletiva;
c) Na exploração dos prados de propriedade comunal os camponeses já praticam uma forma de produção coletiva;
3- Circunstâncias históricas:
a) a transição da agricultura de parcela individual a trabalho cooperativo é vital para tirar a agricultura russa da crise, porém as condições materiais da transição já estão postos na forma de tecnologias do sistema capitalista;
b) “o público Russo” setor privilegiado da sociedade russa, deve bancar o adiantamento necessário para a introdução dos cultivos mecanizados
c) O desenvolvimento da comuna rural por esta via é exatamente o que as tendências históricas do momento pedem e provam as “crises fatais” que estão sacudindo a produção capitalista na Europa e América.
Apesar de Marx não falar em revolução proletária, ele já muda sua posição ou percepção da via pela qual o Ocidente adiantado há de servir como precondição para a revolução Russa. Antes Marx esperava apenas a revolução proletária na Europa e a conseqüente ajuda à revolução Russa. Hoje vê na tecnologia e na crise da produção capitalista.
Outro ponto de debilidade é a existência de um microcosmo localizado. Deve-se abolir o “volost” (governamental) e instituir “une assemblée de paysans” (assembléia de campesinos) elegidas por eles e servindo como instituição econômica e administrativa para proteção de seus interesses. O que aconteceu após 1905. Marx apaga a anotação que atribuía à fragilidade da comuna ser um “microcosmo localizado” e retoma no próximo rascunho.
No terceiro rascunho:
Retoma a questão do microcosmo localizado, conceito dinâmico e descarta a proposta mais estática dos comitês/volost. Para tanto Marx acentua a capacidade campesina de modificação em si mesma espontaneamente. (CAPACIDADE DE LUTA)
Marx se apóia em:
- Kovalevski à Estado por meio de suas políticas de exploração e opressão vem agravando conflitos de interesse dentro das comunas e desenvolvendo as sementes da decomposição.
- Danielson à Estado ajudando que se enriqueça a nova peste capitalista que está chupando a comuna.
E termina: “Se a comuna há de se salvar, torna-se necessário uma revolução russa.”
O autor, Wada, deduz que Marx não quis publicar sua posição com o “Reparto Negro”, de Zasulich, em função de sua ligação e afinidade com o Grupo “A Vondade do Povo”. Na carta de apresentação do trabalho Marx diz que a analise sobre o processo de acumulação primitiva apresentado em “O Capital” não se aplica à Rússia. Conclui com a afirmação de que: para que a comuna sirva de “ponto de apoio para a regeneração social na Rússia, as venenosas influências que a atacam por todos os lados devem ser eliminadas e logo devem assegurar-se as condições normais de um desenvolvimento espontâneo”.

V – A insatisfação de Marx
Março de 1881 assassinato do Czar Alexandre II – Marx e Engels entenderam que haviam condições para o estabelecimento da comuna russa.
Final de março, Engels escreve para A. Babel “as condições revolucionárias se anteciparam, estão amadurecendo”.
Carta para sua filha Jenny Longuet em 11 de abril, aplaudia a atitude de Zhelyabov e Perovkaya frente ao tribunal e o comentário sobre a carta que o Comitê Executivo da Vontade do Povo enviou ao Czar Alexandre III com refinada declaração de ‘moderação’.
Final de 1881 Marx estava esgotado mentalmente. Sua esposa faleceu em 02 de dezembro. Neste ano ainda visitou Ventnor.
16 de janeiro, regresso à Londres e carta de P.L. Lavrov necessidade de novo Prefacio para o Manifesto Comunista. Nele Marx, na versão para a tradução russa, escreve que “A única resposta possível para esta questão (...) é: si a revolução russa se converte em um sinal para a revolução proletária no ocidente, de modo que as duas podem complementar-se, então a atual propriedade comunal da terra na Rússia pode servir como ponto de partida para um desenvolvimento comunista”. Posição Engeliana que acreditava que a revolução russa uma vez iniciada seria seguida com toda a certeza pela Alemanha. Carta a Bernstein em 22 de fevereiro.
1882 Marx leu Os destinos do capitalismo na Rússia, de Vorontsov. Em 14 de dez escreve para sua filha Laura Lafargue
Texto 16: SHANIN, T. El ultimo Marx: dioses y artesanos. In: SHANIN, T. El Marx Tardio y la Via Russa: Marx y la periferia del capitalismo. Madri: Editorial Revolucion, 1990. p. 13-58.

Teodor Shanin inicia seu artigo contextualizando o ambiente de Marx no período que antecede a produção do Volume I de “O Capital”, momento histórico em que, em função do desenvolvimento industrial na Europa Ocidental, tornam-se mais explícitas as relações de exploração do trabalho e a produção da “mais valia” que possibilitava o processo de acumulação ampliada do capital. Marx constrói sua teoria econômica sob o impacto da Revolução Francesa, e do desastre da Comuna de Paris. Além disso, ainda estava presente a força do pensamento evolucionista de Charles Darwin, da organização do pensamento político socialista de Fourier e Saint-Simon, da filosofia de Spencer, da dialética idealista de Hegel e do positivismo de Comte.
Apesar da sociedade capitalista mais avançada ser a Inglaterra, Marx pode estudar o processo de desenvolvimento econômico e social de várias sociedades capitalistas ou em vias deste desenvolvimento como o processo alemão e francês. A base teórica de “O Capital” se sustentava num primeiro momento (Volume I – publicado em 1867) das premissas evolucionistas, como a determinação de que o país mais desenvolvido industrialmente (a Inglaterra) poderia ser a imagem do futuro de outras nações ocidentais. Essa visão unidirecional das leis naturais para o desenvolvimento capitalista foi motivo de muita reflexão para Marx em sua epistemologia a partir dos princípios do materialismo histórico (dialética marxista). Nesse momento, além dos “novos” estudos no campo da antropologia que desvendavam o período pré-histórico das sociedades humanas, em especial a vida rural dos povos antigos, ele considerou outras relações sociais até então existentes como as sociedades orientais e o Modo de Produção Asiático como exemplos de sociedades fora do eixo unilateral das explicações científicas. Além disso, ainda existia o caso da Rússia que se mantinha até o século XIX com forte presença das relações feudais.
Sobre a Rússia, Shanin faz uma reflexão sobre o papel e a importância dos “populistas”, em especial, a tendência “Terra e Liberdade” atuante durante o período de 1879 até 1883, com Herzen, Lavrov e Chernyshevsky, dentre outros. Essa tendência se dividiu na corrente “A Vontade do Povo”, de grande influência política e na “Reparto Negro”, mais radical, e que foram totalmente aniquiladas pela polícia Czarista. Os populistas admitiam o processo revolucionário nas mãos dos camponeses e dos trabalhadores assalariados ou de jornada incompleta (mais adiante, também nas mãos dos intelectuais). Esse ambiente revolucionário dos populistas na Rússia exerceu grande influência nas teses revolucionárias de Marx e Engels. Porém, foram nos últimos dez anos da produção de Marx que ele se aproximou mais claramente das teses do populismo revolucionário, teses formuladas em função da existência das comunas campesinas existente na Rússia.
Como ponto de partida dessa reflexão sobre as teses populistas, segundo Shanin, foi a carta (e sua resposta) da então militante do Grupo Reparto Negro, Vera Zazulich, que atribuía às comunas rurais da Rússia uma “supervivência”, ou um “resto” positivo da organização social do comunismo primitivo, positivo como “resto” presente de uma sociedade sem classes e como potencial (de sua preservação) para o futuro. Essas reflexões foram amadurecendo em Marx que passou a ver a comuna re-estabelecida em um novo e mais elevado nível de bem estar social e de interação mundial (globalizado) participante da futura sociedade comunista. Outro ponto de reflexão foi a resposta à carta ao editor de Otechestvennye Zapiski, não publicadas (nem os rascunhos) pelo grupo Emancipação do Trabalho, mesmo com o pedido de Engels, que entendiam que explicitar uma mudança de posição de Marx poderia dificultar a luta revolucionária do início do século XX.
Shanin continua seu artigo mostrando as afinidades de Marx com todas as expressões revolucionárias, independentemente de sua bandeira. Posição esta que causava uma irritação nos marxistas doutrinários, haja vista as grandes polêmicas e os rachas que aconteceram com a II Internacional Socialista.
Para concluir, o autor busca demonstrar o caráter humano (e não divino) de Karl Marx usando os argumentos das mudanças ocorridas nas diferentes fases de sua obra. Desde o texto da “Acumulação Primitiva” com uma visão unidirecional da história e a abertura que já pode ser sentida nos “Grundrisses” apontando para a multiplicidade de caminhos na evolução da formação capitalista. Reiterando o eu disse em aula, a nossa formação Marxista-Leninista nos fez ver o Marx radical, imutável, quase um Deus da ideologia anti-capitalista (ou anti-Yankee). Essa leitura me fez ver o outro lado, a face humana, da construção do materialismo histórico que comporta dúvidas e retomadas de posição frente às obviedades de novos fatos. Aliás, coerente, como deveria ser, com o método da dialética marxista.
Texto 15: CHAYANOV, Alexander. Viaje de mi hermano Alexis al pais de la utopia campesina

Trata-se de um texto em forma de uma novela, escrita por Chayanov e publicada em Moscou, em 1920, sob o pseudônimo de Ivan Kremnev.
A história tem por coadjuvante principal o Sr. Alexei Vasilievich Kremnev que, ao sair de uma reunião no Museu Politécnico em algum dia do mês de outubro de 1921, onde se discutia as ações que seriam desencadeadas com vistas ao golpe final no regime burguês, se viu envolto numa viagem imaginária ao país da utopia camponesa.
Ao acordar, se encontra em um local desconhecido. Assustou-se ao ver num jornal a data estampada de 05 de setembro de 1984, ou seja, um salto de 63 anos na história. Numa carta que estava ao seu lado se deu conta que estava sendo apresentado pelo nome de Charlie Man, americano que encontrava-se em Moscou para conhecer as grandes realizações técnicas no campo da agricultura, decorrentes da revolução camponesa ocorrida na década de 30.
Charlie Man é recebido por uma mulher de nome Paraskeva e, a seguir, por seu irmão Nikifor Alexevich Minin que o levam para um passeio pela cidade de Moscou. Não era mais um país socialista, nem anarquista, nem capitalista. Tratava-se, segundo seus anfitriões, de um sistema social e político com hegemonia camponesa. As cidades grandes foram destruídas e as populações urbanas descentralizadas por todos o país. Foram construídas redes de rodovias onde foram assentados pequenos núcleos urbanos que funcionavam como sedes de milhares de regiões camponesa.
Essa República, baseada na exploração familiar camponesa, que nos sistemas anteriores era vista como em extinção, passava agora a ter um status de modernidade, onde o trabalho rural era planificado e altamente prazeroso e gratificante. Havia, porém, uma ameaça de guerra com a Alemanha e, uma vez em curso, foi imediatamente sufocada com a utilização de equipamentos eletromagnéticos que, além de controlar o clima e produzir chuva, poderia também criar catástrofes climáticas que se traduziam em um mecanismo de defesa contra inimigos externos. Dessa forma, os alemães foram derrotados e, como compensação, transferiram para Moscou várias obras de arte que eram imediatamente expostas em museus volantes que levavam cultura a todos os lugares.
Kremnev observa o grau de desenvolvimento das regiões e das pequenas cidades que pareciam não ter fim, uma vez que elas se interligavam entre campos produtivos, florestas e parques públicos. Kremnev, ou seja, Mr. Charlie Man foi apresentado a Katerina que, mais tarde se apaixona e inicia uma relação mais afetiva. Entretanto, no desenrolar dessa novela Mr. Charles é constantemente solicitado a falar sobre o modo de vida americano. Porém, ele sempre escapulia e fugia do assunto com questionamentos sobre o sistema camponês Russo. Numa visita a um museu de cera ele encontra uma imagem sua relacionando-o a um membro do Conselho Mundial das Economias e opressor dos camponeses.
Mr. Charlie busca informações sobre as bases sociais da vida camponesa em vigor e dos princípios que regem o cotidiano. Foi explicado que o princípio era a valorização camponesa em toda a sua plenitude. Que havia dois problemas a serem resolvidos, a saber: 1) um econômico, cuja solução exigia um sistema de economia nacional que lhe conferisse um papel diretivo, 2) um social/cultural, o problema da organização social de amplas massas da população. Que o Estado era mínimo e foi substituído por formas associativas, cooperativas, academias, congressos, alianças, jornais e, por fim, círculos. Depois de muitos contratempos em função de sua crítica, Mr. Charlie é preso e tem uma experiência dos lugares de detenção no país das utopias. Tenta explicar sua identidade, mas sua história não é aceita como verdade e só é solto em função do fim da guerra contra os Alemães.
Texto 14: CHAYANOV, Alexander. La organización de la unidad económica campesina. Buenos Aires: Ediciones Nueva Visión, 1974. p.1-132.

A apresentação é de Eduardo P. Archetti que articula de forma muito clara as principais hipóteses que diferenciam Marx e Chayanov no que diz respeito à dinâmica da produção camponesa.
Chayanov, na introdução desta obra, apresenta as principais correntes do pensamento econômico sobre o destino da agricultura, presentes na Rússia no início do século XX e que tiveram como substratos teóricos as teses marxistas e populistas. Ele se coloca na vertente denominada “Escola da Organização e Produção”, juntamente com Chelintsev, Makarov, Rybnikov e outros, que, dentre outras linhas de pesquisas, desenvolveram a polêmica “Teoria da Unidade Econômica Camponesa”. Essa teoria foi construída em função das novas formas de organização camponesa na transição do sistema feudal para o capitalista, momento em que foram implementadas políticas de acesso à terra, organização de cooperativas de produção e desenvolvimento e difusão de tecnologias, em especial, máquinas e implementos agrícolas.
A questão fundamental era que o desenvolvimento tecnológico e o seu conseqüente aumento de produtividade não era absorvido pela agricultura familiar camponesa de baixa renda que se esforçava, sob inúmeras formas, em manter-se na terra e preservar o espaço de subsistência, muitas vezes com inversões negativas em seus investimentos em relação à renda capitalizada. Essa forma de organização do trabalho se apresentava completamente diferente das formas empresariais. O autor encaminha duas hipóteses a serem confrontadas: a) a fictícia dupla natureza do camponês – trabalhador e empresário e, b) o conceito da unidade econômica familiar, cuja motivação é semelhante ao sistema de empreitada.
O primeiro capítulo se dedica ao estudo da família camponesa e a influência de seu desenvolvimento na atividade econômica, iniciando pelas leis que regem a constituição do camponês em sua unidade familiar com suas relações com o mercado organizado, sua terra de produção e a composição da mão-de-obra dentro e fora da propriedade, como elemento organizativo do processo de produção. Aproveitando os dados do censo de zemstvos, Chayanov analisa o tamanho da família russa, a relação de consumo e trabalho, a distribuição da faixa etária de seus membros e a relação de volume de trabalho com o tamanho da família. Apresenta o conceito de “diferenciação demográfica” que explica a distribuição de grupos camponeses segundo a área semeada como alternativa à categoria “diferenciação social” até então utilizada. Conclui mostrando a necessidade de se estudar outros fatores, além do papel do trabalhador familiar, para se determinar o tamanho da unidade econômica e a natureza da unidade econômica.
No segundo capítulo, o autor se propõe a discutir a medida da autoexploração de trabalho e o conceito de “benefício” na família camponesa. Define os produtos bruto e líquido e os “ingressos” de recursos sejam pelas atividades agrícolas ou não. Analisa a intensidade de consumo distribuição da força de trabalho familiar ao longo do ano. Como conclusão, afirma que o grau de autoexploração da força de trabalho se estabelece pela relação entre a medida da satisfação das necessidades e o peso do trabalho. Que a extensão da unidade doméstica de exploração é determinada pela relação entre as necessidades de consumo da família e a sua força de trabalho.
No terceiro capítulo (e último analisado neste trabalho), Chayanov aprofunda os princípios básicos da organização da unidade camponesa. Apresenta os fatores de produção (terra, capital e trabalho) de uma empresa agrícola e a lógica de maximização do lucro pelo empresário em função da otimização e da racionalidade empresarial. Diferentemente, a força de trabalho no campesinato sendo um componente fixo na composição da produção é definida pelo tamanho da família. O autor conclui que a força de trabalho numa unidade familiar de produção é definida pelo tamanho da família. Esta, por sua vez, determina o tamanho da atividade familiar, o nível geral da intensidade do trabalho e o grau de satisfação das necessidades para as condições específicas de um determinado mercado e dos demais fatores de produção disponíveis (terra e capital), além do próprio consumo da família.
Texto 13: KAUTSKY, Kahl. A Questão Agrária. Os Economistas, São Paulo: Nova Cultural, 1986.
(Resumo do trecho até o capítulo VI, inclusive)

Kautsky procura apresentar, sob a ótica marxista, a importância das classes do proletariado e do capitalista no modo de produção capitalista. Porém, que co-existem outras formas remanescentes de outros modos de produção pré-capitalistas e outras como embrião de futuras formas. Que o camponês é uma camada intermediária e que aponta sua luta para lados opostos em determinadas situações. Que se esperava que a luta entre grandes e pequenos estabelecimentos culminasse com a derrocada do pequeno o que facilitaria o domínio das massas camponesas pela luta proletária. Existência de uma “força misteriosa”, que tantas surpresas já causaram aos partidos revolucionários, que mantém o pequeno estabelecimento.
Para o autor, não se deve fixar apenas na luta entre o grande e o pequeno, nem se deve focalizar a agricultura como entidade isolada e desligada do mecanismo integral da produção social. Tampouco, não se trata de substituir o grande pelo pequeno. Que a agricultura não é cópia fiel da indústria. Encaminha questões para futuras pesquisas: o K se apodera da agricultura? Como o faz? Torna insustentáveis velhas formas?
Kautsky faz uma comparação entre o processo de formação da indústria e a sua influência no campesinato. O modo de produção capitalista se desenvolve, primeiramente, via de regra, nas cidades e na indústria. O desenvolvimento industrial já conseguiu modificar o caráter da agricultura. Antes a família camponesa medieval funcionava como uma cooperativa auto-suficiente. Produzia tudo para sua auto-subsistência. A má colheita, o incêndio, tudo se reconstruía, se reparava. O desenvolvimento da indústria gerou demandas de novos produtos da cidade causando a dissolução da indústria camponesa de consumo de subsistência. Antes a boa colheita era sinal de fartura. Hoje, com o mercado, é sinal de preços baixos e menos dinheiro.
A família camponesa funcionava como uma cooperativa doméstica e auto-suficiente. A aldeia era uma cooperativa auto-suficiente e economicamente fechada, propriedade fundiária comunitária. O campo tinha três afolhamentos, subdivididos em diversos campos cultivados menores. Nesses campos havia, para cada unidade agrícola, um lote de propriedade exclusiva. Além dessas terras havia a terra indivisa de uso comum – florestas e pastagens, explorada em regime cooperativo. Plantava-se trigo para a subsistência e o pastoreio, dominante, era atividade de interesse comum para toda a comunidade.
Os “Direitos Consuetudinários”, que significava nada exportar, tudo consumir na própria aldeia. Isso foi perturbado pela pressão do mercado por produtos da aldeia. Reduzem o tamanho das terras camponesas e com isso, desequilibram o sistema das 3 rotações.
Kautsky apresenta o funcionamento da agricultura moderna, como ciência, e sua adaptação à evolução tecnológica e do mercado que reduziu terras e ampliou as demandas.
Apresenta de forma detalhada e, à luz da teoria marxista, os elemento componentes da economia rural: o valor (que não tem o mesmo significado que preço), a mais-valia, o lucro, a renda diferencial e a renda fundiária absoluta e, por fim, o preço da terra
Kautsky escreve um longo capítulo discutindo a superioridade técnica do grande estabelecimento. Inicia situando a propriedade no período pré-capitalista onde a diferença entre a utilização de técnicas não existia entre a grande e a pequena propriedade. Apenas nas “plantações” havia diferenças. Nas demais, apenas o uso de animais fazia diferença.
Na agricultura a unidade familiar esta vinculada com a atividade produtiva. Ele faz comparações entre a exploração em grandes terras e em pequenas e mostra as vantagens das grandes extensões. Os ganhos de escala na estrebaria, na semeadura, no custo de preparação da terra, no uso de energia elétrica, o uso na máquina elétrica só seria vantajosa na grande.
Custos administrativos são menores nas grandes. No comércio e na educação. O custo de um agrônomo (burguesia) é grande para uma pequena propriedade. Nos transportes “o custo diminui (...) quem compra em grandes quantidades... compra melhor”. Cita John Stuart Mill que é defensor dos pequenos em função da quantidade de trabalho e do “esforço sobre-humano”. Escreve sobre a necessidade do trabalho infantil (12 anos) na pequena propriedade. As dificuldades quanto à moradia, moveis e utensílios, as vantagens em função das privações (alimentação) e do trabalho infantil. Para finalizar, o autor descreve o funcionamento das experiências em regimes de cooperativas e conclui com um questionamento: “Por que, de modo geral, a agricultura moderna, apresentando um desempenho tão bom em moldes capitalistas, não poderia funcionar em regime de cooperação?”

Sunday, June 03, 2007

Texto 12 - LENIN, V.I. O Programa Agrário: da Social-Democracia na primeira revolução Russa de 1905-1907. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1980. (Conclusão)
Data: 26 de abril de 2007
A conclusão essencial que chega Lênin, em fins de 1907, é que o problema agrário é à base da revolução burguesa na Rússia e condiciona a peculiaridade nacional dessa revolução.
O autor entende que a essência do problema camponês é a destruição do regime latifundiário de posse da terra e dos restos feudais ainda existentes na Rússia e, consequentemente em todas as instituições sociais e políticas do país. Lênin analisa a concentração de terras e atesta que os latifundiários mantêm relações feudais, pois a base da propriedade agrária foi criada no regime de servidão e que a base da economia ainda é o regime de pagamento em trabalho, oriunda da corvéia com formas variadas de avassalamento dos pequenos camponeses. O desenvolvimento capitalista na Rússia é incompatível com a existência de traços feudais na agricultura e que essa eliminação se deu na forma de uma crise violenta. Reflete sobre a possibilidade dessa superação do feudalismo se dar a partir de duas vias distintas, a saber:
1) A via Prussiana de transformação do latifúndio em propriedade burguesa, tipo “Júnker”, transformando camponeses em deserdados da terra ou na forma de “Knechts”, por meio da violência, e, por fim, através da formação de Grossbauers (abastardos camponeses burgueses). Por essa via a contra-revolução latifundiária organiza a violência em todo o universo camponês e proletariado.
2) A via “norte-americana” de desenvolvimento do capitalismo, que mesmo sendo igualmente violenta, diferentemente da via Prussiana, se dá em favor da massa camponesa e não dos latifundiários, estes reacionários às mudanças no sentido econômico. Esse método é mais amplo, livre e rápido como conseqüência do crescimento do mercado interno e da elevação do nível de vida da maioria dos beneficiários. Lênin divaga sobre as dificuldades do processo na Rússia, em especial da burocracia residual do feudalismo presentes em todas as esferas políticas. Que lá, o camponês foi “arrancado” da terra surgindo de um lado o arrendamento e o abandono das terras, de outro, criando a economia dos granjeiros livres (Grossbauers da Rússia Junker).
Para formar essa economia de granjeiros seria necessário uma “limpeza” da terra de todo o resíduo feudal. Expressão dessa necessidade é a estatização da terra e a abolição da propriedade privada com apoio da maioria dos camponeses, vide Congresso da União Camponesa de 1905, na 1ª Duma, em 1906 e na II Duma em 1907. Posição esta em função da necessidade de se romper com as relações feudais de posse parcelada da terra, não por se constituir numa relação socialista, e sim, por se constituir numa relação burguesa. Burgueses e latifundiários colocaram-se ao lado da propriedade privada. De outro lado, camponeses e proletários se colocaram contra a propriedade privada da terra. Com isso, a experiência da primeira revolução de 1905/07 demonstrou que ela foi agrária, camponesa e a necessidade de se estatizar a terra.
O autor diz que a estatização das terras não é só o único processo de liquidar as formas medievais, mas também o melhor regime agrário concebível sob o capitalismo. Cita as causa dos desvios dos social-democratas deste caminho: a) a negação da renda absoluta, b) a cegueira quanto aos caminhos da revolução camponesa e, por último, c) o programa de municipalização (dos mencheviques, que não compreendiam a importância da aliança do proletariado aos camponeses para a vitória revolucionária).
Lênin diz como deve ser a luta revolucionária determinada pelo proletariado, sem regionalismos e sem o isolamento de diferentes nacionalidades. Que deve ser com a unidade dos camponeses para a vitória.
Conclui dizendo que “o momento (reação conservadora e reacionária à primeira revolução de 1905/7) é adequado para amplos programas agrários. Que quanto maior for esta “reação”, tanto mais retardará o desenvolvimento econômico inevitável, com tanta maior eficácia preparará um ascenso mais amplo do movimento democrático”.
No epílogo, Lênin recupera o final dessa publicação que foi destruída por conta da reação tzarista em 1908. Frisa que a guerra acelerou o processo capitalista na Rússia, transformando-o em capitalismo monopolista de Estado, que nem o proletariado nem a democracia revolucionária pequeno-burguesa podem limitar-se ao quadro do capitalismo. A estatização da terra não é só a “última palavra” da revolução burguesa, mas também um passo no sentido do socialismo. Que o proletariado tem a necessidade de transferir (o poder) dos soviets camponeses para os soviets operários rurais e exigir a estatização dos instrumentos (de trabalho) e do gado (rebanho) das fazendas latifundiárias e formação de granjas modelos sob controle dos soviets. Por fim, recomenda a leitura da bibliografia Bolcheviques e de seus folhetos: Cartas sobre tática e As tarefas do proletariado em nossa revolução. Em 28 de setembro de 1917.
Texto 11 - LENIN, V.I. O desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de formação do mercado interno para a grande indústria. 2 ed., São Paulo: Nova Cultural, 1985. 121 p. – (Introdução de José Paulo Netto)
Data: 11 de maio de 2007
Lênin busca neste livro uma nova construção teórica do que seria o mercado interno num país com fortes raízes feudais num processo de transição para o modo de produção capitalista. O autor parte das teses populistas que defendiam a passagem diretamente para o capitalismo, evitando-se o capitalismo ocidental e a guerra de classe, indo diretamente do subdesenvolvimento para o “socialismo agrário”. Os populistas entendiam que a viabilidade do capitalismo na Rússia era um grande problema, pois arruinaria a economia camponesa, limitando o mercado interno. Além disso, os mercados externos estavam saturados e sob controle das grandes potências econômicas ocidentais e a Rússia não teria espaço para sua expansão.
Em “Desenvolvimento”, Lênin apura o pensamento marxista onde a ruína camponesa não se traduz em liquidação do mercado capitalista. Ao contrário, é uma conseqüência da emergência capitalista, engendrando, com a industrialização, conflito de classes, desintegração campesina e formação do proletariado.
No Capítulo I da primeira parte do livro, Lênin apresenta seu referencial teórico para explicar o processo de formação de um mercado interno para o capitalismo. Analisa a existência da divisão social do trabalho e conclui que, diferentemente dos populistas, na Rússia inexiste a divisão social do trabalho.
No Capítulo II, o autor destrincha a economia rural russa de base camponesa, mostrando a sua desintegração em três segmentos: camponeses ricos, que irão compor a burguesia rural; o campesinato médio e os camponeses pobres que vão se tornar os proletários rurais.
Lênin analisa os censos agrícolas realizados pelos zemstvos (formas de auto-administração local sob a égide da nobreza) em várias regiões da Rússia buscando observar a diferenciação camponesa e as características fundamentais desse fenômeno. O autor parte da análise de relatórios e estatísticas oficiais e conclui dez pontos essenciais. A saber:
1) O campesinato russo estava inserido na economia mercantil e subordinado ao mercado; 2) a existência, no campesinato, de todas as contradições típicas de qualquer economia mercantil (proletarização, espoliação, uso de operários agrícolas etc.); 3) a desintegração do campesinato (descamponização), ou seja, o campesinato antigo não se diferencia, ele apenas deixa de existir, se destrói, é substituído pela burguesia e pelos proletários rurais, e, por fim, analisa a passagem da “renda em produto” em “renda em dinheiro”; 4) Com a desintegração, o desenvolvimento de grupos extremos em detrimento do campesinato médio e que a burguesia é o seu verdadeiro “senhor” (hegemonia); 5) O novo tipo de personagem – o proletário rural, operários assalariados que possuem um lote rural (tipo próprio a todos os países capitalistas – o cottager inglês, o parcelário francês, o Bobyl ou Knecht prussiano etc.); 6) O processo de descamponização, ou seja, eliminação dos médios; 7) a desintegração do campesinato cria um mercado interno para o capitalismo (artigos de consumo); 8) a continuidade da desintegração campesina com o êxodo rural (em especial o médio camponês); 9) A relação do capital comercial e usurário na desintegração campesina é analisada e Lênin conclui que o desenvolvimento autônomo do K comercial e usurário “trava” a desintegração do cmpesinato, por fim; 10) A existência dos remanescentes do regime de corvéia (pagamento em trabalho) que retarda a desintegração.
Nos capítulos seguintes (não analisados neste resumo) Lênin trabalha, no Capítulo III, a questão da propriedade privada agrícola; no capítulo IV, aborda mais diretamente a questão da mercantilização das atividades agrícolas; nos capítulos V, VI e VII o autor analisa o setor industrial, sendo que no capítulo V ele se detém sobre a forma como o capitalismo atravessa a antiga indústria doméstica e artesanal; no VI, o papel da manufatura capitalista que associada ao trabalho à domicílio torna-se o processo histórico de formação da indústria mecanizada, e; no VII, como a indústria vai realizar a separação definitiva com a agricultura. Eu encerro este resumo pelo prefácio da segunda edição onde Lênin situa a elaboração do presente livro: “Desenvolvimento”, num determinado momento histórico, pré-revolucionário (revolução de 1905/07). Ele afirma que num período revolucionário torna-se “impossível determinar (...) os resultados da evolução econômica”. Destaca que em função da base econômica vigente na Rússia, com fortes traços feudais, seria necessária uma revolução burguesa e que existem duas análises com diferentes visões de classe para este processo. A primeira, sob o pensamento social-democrata, que entende que a direção do processo revolucionário deve permanecer sob a direção da burguesia e da necessidade de se apoiar os “liberais”. Nessa perspectiva, Lênin considera que a massa camponesa seria expropriada e escravizada pelo sistema. Na segunda perspectiva, Lênin considera a destruição do latifúndio e dos pilares da “superestrutura” (feudal/czarista); o papel dirigente seria do proletariado e das massas camponesas. Com isso, haveriam condições objetivas para que o operariado pudesse cumprir sua “autêntica e fundamental tarefa – a transformação socialista”.
Texto 10 - MARX, K. Formações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 5. e., Coleção Pensamento Crítico, v.5, 1986. (com a introdução de Eric Hobsbawm)
Data: 09 de maio de 2007

Os “Grundrisse” foi um grupo de manuscritos escritos por Marx, anterior ao Capital, considerado como o último dos trabalhos de “envergadura”, de sua fase madura. Constou basicamente de dois documentos: o Prefácio do livro “Para a crítica da Economia Política” e do texto “Formações econômicas pré-capitalistas” - “Formen”. No “Prefácio”, Marx apontou para as questões da formação das relações sociais de produção e sobre o conflito entre as forças produtivas e as relações de produção, à luz do método do materialismo histórico ou dialético. No texto aqui analisado, “Formen”, escrito em Moscou entre 1857 e 58 e publicado somente em 1939/41, o autor aborda principalmente o problema da evolução histórica pré-capitalista, a partir da aplicação da sua teoria dialética. Apesar de não ser um livro de “história”, a “Formen” busca formular o conteúdo da história em sua forma mais geral (o progresso).
Marx inicia seu texto apresentando os pressupostos do trabalho assalariado e as condições históricas do capital, quais sejam: a) a existência do trabalho livre e a sua respectiva troca por dinheiro e, b) a separação do trabalho livre das condições objetivas de sua efetivação. Segue buscando a explicação para o conceito de “propriedade”, como unidade natural do trabalho. Diz Marx que no início “o relacionamento do trabalhador com as condições objetivas de seu trabalho é de propriedade; esta constitui a unidade natural do trabalho com seus pré-requisitos materiais”. A seguir, a “co-propriedade” no caso específico de uma comunidade. Marx analisa a relação de propriedade, não como criação de valor (de troca), mas como manutenção do trabalhador e da sua própria comunidade (valor de uso). Trabalhador como produto histórico em suas diferentes relações de apropriação às condições objetivas da vida, seja nas comunidades tribais (hordas), como em outras formas sociais (asiáticas). O autor analisa também diferentes situações onde a “unidade geral mais abrangente” se apresenta como “proprietário comum”, acima dos indivíduos, tornando os trabalhadores “não-proprietários”. Descreve a figura do “déspota” como o “pai de numerosas comunidades” o que produz uma “ausência” de propriedade. Em um momento seguinte da história, surgem os “senhores” (comunidades Romenas e Eslavas) e o aparecimento do regime de servidão. Marx cita outros sistemas sociais (Peru, México, Celtas, Índia etc.) onde a unidade natural do trabalho envolveu uma organização comum do trabalho variando de formas mais despóticas ou mais democráticas. De modo geral, ele enquadra em três (ou quatro) vias alternativas de desenvolvimento a partir do sistema comunal primitivo: a oriental, a antiga, a germânica (e a Eslava, pouco discutida).
O autor cita o aparecimento das cidades, produto da vida histórica, e a dinâmica inicial de suas formações: o comércio externo, seus territórios, a guerra (o grande trabalho comunal). Nesse momento da história a terra comum se separa da propriedade privada (separação entre os meios de trabalho e o objeto de trabalho). As trocas ficam cada vez mais especializadas e sofisticadas, até que surge o dinheiro e, com ele, a produção de mercadorias e, com a troca de mercadorias, o processo de acumulação de capital (que não se encontra ainda neste texto). No capitalismo, a separação do trabalhador aos seus meios de produção se completa (expropriação). Daí o trabalhador é reduzido simplesmente à “força-de-trabalho”. Por isso, o autor diz que somente no capitalismo o trabalhador se encontra livre para “vender” sua força de trabalho, se completando o processo de individualização do Homem - “o Homem só se torna um indivíduo por meio de um processo histórico”. Neste “Modo de Produção Capitalista” (Marx não utiliza este conceito nos Grundrisse), os trabalhadores experimentam um período histórico de intensa desumanização e hostilidade por parte do circuito do capital, entretanto, para Marx, esse processo social e histórico “encerra imensas possibilidades para a humanidade (...)”. Apesar de ser, para o autor, a etapa pré-histórica da sociedade humana, a era das sociedades de classes, ela propicia a passagem para a nova era, onde o Homem controlará o seu destino – “a era do comunismo”.
Para concluir, eu gostaria de registrar o caráter da pertinência dos estudos em bases do materialismo dialético, quando Hobsbawn, na página 64, se referindo a superioridade do método marxista, diz que: “Um cuidadoso estudo das Formen – que não implica a aceitação automática das conclusões de Marx – será de grande valia para este objetivo e, de fato, uma indispensável parte dele”.
Texto 08 - NEWBY, H. El desafio de la sociología rural en la actualidad. Comercio Exterior, México, v. 32, n. 4, p. 347-356
Data: 26 de abril de 2007

O autor apresenta em sua introdução as questões que ele considera relevante relacionada à crise da sociologia rural em especial durante a década de 70. Segundo alguns autores, parece que ela se encontra dominada por uma conjunção peculiar de problemas referentes ao seu objeto de estudo, sua pertinência teórica, sua responsabilidade publica e inclusive sua competência para fazer pesquisa.
Apresenta duas questões, um esforço de reflexão sobre crise da sociologia:
1) O paradoxo da recente difusão mundial da sociologia rural como uma sub-disciplina institucionalizada, e;
2) A urgente e necessária formulação de uma sociologia reflexiva. A crise provem da perda de confiança da sociologia rural anteriormente praticada.
O grande desafio é, pois, a formulação de uma nova sociologia rural. Trata-se de redefinir os velhos problemas dando-lhes formas novas. Tarefa esta que terá que exigir um conhecimento empírico muito responsável da estrutura e das relações sociais e, também, um conhecimento de certo caráter intimidante, combinado com uma teoria que explique essa estrutura e relações.
No item “As origens da crise”, o autor apresenta algumas questões que ele considera que não são excludentes, a saber:
a) Problemas de definição: Se traduz na existência de uma confusão teórica sobre o conceito de “rural”,em relação ao conceito de urbano e que a Sociologia rural Americana, oriunda dos “Land Grant Colleges”, tem uma característica positivista, indutiva, quantitativa, e aplicada. Um estilo que pode ser considerado um produto da “hegemonia paradigmática”. Dois problemas se desdobram: nenhum vínculo com a sociologia geral e carência de uma teoria aceitável da “sociedade”. Teoria que vincule o espacial com o social e incorpore a noção de continuo rural-urbano
b) Busca de uma legitimidade científica
Processo de atrelamento dos sociólogos rurais a grupos econômicos e agências fomentadoras de políticas acentuando o caráter aplicado desta ciência. Outra questão foi a busca da legitimidade científica alcançada a partir de métodos quantitativos e manejo de dados como forma de superar as dificuldades teóricas da sociologia.
Considerações Teóricas: O autor fala sobre o surgimento dos conceitos rural e urbano desvinculados do “continuum rural-urbano”. Que estes conceitos não eram variáveis explicativas, tampouco, categorias sociológicas.
O desafio atual: Considerar que os processos sociológicos que conformam uma determinada sociedade rural contemporânea, não podem ser reduzidos à categoria de “rural”, ou simplesmente de “extras rurais”, nem pode ser encarada com média de fatores.
A Teoria da Dependência: André Gunder Frank elaborou um teoria que se afastava do determinismo até então praticado na sociologia. Criou uma teoria de desenvolvimento social baseado na tese da dependência entre os diferentes fatores (fusão da teoria do desenvolvimento desigual, de Marx, e a teoria clássica), dependência no sentido de uma economia de um determinado país condicionada pelo desenvolvimento e expansão de outra economia na qual a incorpora.
A Teoria do Centro e da Periferia, que se contrapões à teoria da dependência. Dessa forma se enxerga o desenvolvimento a partir da relação espacial em vez de se considerar apenas cada um dos termos em si mesmos.
O Colonialismo Interno: considera apenas uma economia sob parâmetros marxistas vinculada ao modelo centro-periferia. Corresponde ainda a uma estrutura de relações sociais baseadas na dominação e exploração entre diferentes grupos sociais.
A Administração Rural: movimento que tratou de entender os processos de fluxo de recursos entre a cidade e o campo.
Conclusão: Uma nova sociologia rural ou uma sociologia da agricultura? Os debates apontam para uma sociologia que vinculem diretamente as preocupações teóricas da sociedade rural com as disciplinas em seu conjunto.
Texto 09 - MARTINS, J. de S. Crítica à sociologia rural: o futuro da sociologia rural e sua contribuição para a qualidade de vida rural. In: MARTINS, A. A sociedade vista do abismo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2002. p. 219-228.

O texto discurso de Martins no X Congresso Mundial de Sociologia Rural, realizado no Rio de Janeiro, no ano 2000, inicia com uma reflexão sobre o processo de “desencantamento”, do ponto de vista Weberiano, que vem passando a Sociologia Rural. Em especial, no que diz respeito à relação com a agricultura familiar, segmento da sociedade que possui seus próprios códigos de conhecimentos e concepções de destino, de certa forma não compreendido historicamente pela prática dos sociólogos rurais brasileiros. Falta de compreensão, em especial, na questão da visão de retardamento ao desenvolvimento econômico e social.
Martins sociologia deveria ter sido moldada para compreender o modo de ser e de viver das comunidades rurais que são mediadas pela própria maneira de se inserirem no circuito de seus processos sociais e históricos. A sociologia se pautou muito mais pelo que os sociólogos gostariam que fosse, do que pela vontade e expressão genuína dessas comunidades rurais.
O autor afirma que “modernização” é um valor dos sociólogos e que para os rurais, as representações sobre este tema se ligam mais ao desemprego, desenraizamento, desagregação, dor e sofrimento. Que o êxodo rural vem desnudando uma perspectiva crítica quanto ao desenvolvimento capitalista e que esse deslocamento de massas já mostrou aos sociólogos que o rural pode subsistir fora da economia agrícola.
O autor cita o significado social do processo de desenvolvimento implementado no país após o Golpe de Estado em 1964 (e que José Graziano chamou de “Modernização Dolorosa”) e do processo engendrado de “contradesenvolvimento social”. Para a população rural era “resistência” ao que não havia sentido e nem compreendido.
Martins faz uma reflexão sobre o processo de ocupação territorial brasileiro a partir da década de 60, chamando de “modernização postiça”, em virtude dos enormes investimentos trnasferidos para grupos econômicos nacionais e estrangeiros que se utilizou de trabalho escravo e peonagem para seus megaprojetos agropecuários. E nesse processo histórico a sociologia estava ao lado deste pensamento hegemônico de modernização.
O autor relata sua experiência como membro da “Junta de Curadores do Fundo Voluntário das Nações Unidas contra as formas contemporâneas de escravidão”, que aponta a existência de mais de 200 milhões de pessoas submetidas à escravidão em todo o mundo e que a Sociologia Rural foi o instrumento de remoção de resistências às mudanças. Que ela elaborou diagnósticos para desmontar a sociedade tradicional, mas não teve competência para solucionar as crises decorrentes do processo de expropriação que as comunidades sofreram, para Martins, um processo social anômico.
Propõe que ao invés de se fazer um “mea culpa”, a sociologia rural faça uma uma revisão crítica de suas práticas e de seus rumos. Que se faça uma sociologia da sociologia rural e alerta que existe mais sociologia nas obras de Garcia Marquez, Manuel Scorza, Steinbeck, Saramago, Juan Rulfo e Guimarães Rosa do que nas complexas análises sociológicas clássicas. Se buscar construir uma sociologia do conhecimento, uma sociologia crítica, que remova os compromissos com a “engenharia social” e aponte para a dignidade e para a libertação humana. Aponta Martins que as comunidades rurais são autoras e consumadoras de um modo de vida que é também um poderoso referencial de compreensão das irracionalidades e contradições do mundo não rural e que o futuro da sociologia rural está nas mão das comunidades rurais. Que ela se liberte de uma concepção estamental do mundo rural
Para concluir, Martins observa o papel dos Movimentos Sociais que lutam pela posse da terra e que essa luta é um desafio à sociologia rural para desvendar seu protagonismo e criatividade campesina e que para compreender sociologicamente, o sociólogo rural deve reconhecer-se como membro da comunidade de destino das populações que estuda e lança um desafio final: mergulhar no sonho inventivo e regenerador que ainda há no mundo rural. Tanto para decifra-lo e preza-lo, quanto porque há nele a nostalgia do futuro e a negação das privações que o presente representa para muitos. =FIM=
Texto 07 - SOROKIN, P.A.; ZIMMERMAN,C.A.; GALPIN, C.J. Diferenças fundamentais entre o mundo rural e o urbano. In: Martins, J.S. (org.). Introdução crítica à Sociologia Rural. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 198-224.

Os autores buscam, neste capítulo, escrito inicialmente em 1930, delinear as mais importantes diferenças entre o rural e o urbano. Dessa forma, fazem uma analogia aos animais e às plantas no que diz respeito às diferenciações humanas, seja do mundo rural quanto no urbano. Deve-se estuda-los em suas fases adultas, nos estágios mais desenvolvidos. Além disso, para se estudar este universo (do campo e da cidade), faz-se necessário estudar uma combinação complexa de vários traços típicos e diversas características.
Para tanto, constroem diversas “diferenças” que irão constituir as características diferenciais e definições “compostas” dos mundos rural e urbano. A saber:
I. Ocupacionais: cujas atividades características e fundamentais da população rural são a coleta e o cultivo de animais e plantas. Dessa forma tem-se uma sociologia da ocupação agrícola;
II. Ambientais: os agricultores estão mais expostos à natureza (solo, flora, fauna, água, sol, lua, vento, céu, chuva etc.). Apresentam no texto como as cidades antigas em diferentes civilizações separavam com muros as cidades (artificialidade) do campo (natureza);
III. No tamanho das comunidades: Em função das especificidades do rural a dispersão e a baixa concentração habitacional das populações ocupadas na agricultura, caracterizam essa população menor do que a comunidade urbana;
IV. Na densidade populacional: característica em função da relação com os diferentes tipos de cultivo e criação;
V. Na homogeneidade e na heterogeneidade das populações: Homogeneidade entendida como similaridade de características psico-sociais: linguagem, crenças, opiniões, tradições, padrões de comportamento etc. Nas cidades as populações se misturam como “num cadinho”;
VI. Na diferenciação, estratificação e complexidade social: As cidades apresentam maiores complexidades do que o rural em função de seu corpo social ser mais diversificado, mais especializado e com estruturas mais complexas; apresenta maior diferenciação ou heterogeneidade do material humano e em relação à divisão do trabalho os autores fazem um retrospecto histórico da formação das sociedades humanas e a divisão social do trabalho nesses momentos;
VII. Na mobilidade social: os aglomerados urbanos possuem uma mobilidade social horizontal e vertical maior do que as populações rurais (territorial; posições econômicas, políticas e sociais; dessa forma, a população rural é menos móvel do que a urbana);
VIII. Na direção da migração rural/urbana: As comunidades rurais têm sido o centro de produção de um excedente de seres humanos e as cidades o centro de consumo. Esse fenômeno indica que a migração populacional é unidirecional;
IX. No sistema de integração social: uma diferença qualitativa e quantitativa no sistema de contato e interação social dos membros de ambas as comunidades. As relações estabelecidas pelo agricultor é menos que o cidadão das cidades; As cidades se constituem em universos mais dinâmicos;
Dessa forma, no que diz respeito aos aspectos qualitativos temos:
1) A área do sistema de contato do indivíduo da comunidade rural é menor do que os da cidade; espacialmente mais estreita e limitada;
2) As relações face a face ocupam uma proporção menor no sistema social de interações de um urbanita em comparação com um indivíduo do meio rural;
3) No meio rural prevalece as relações “pessoais” nos sistemas de interação dos membros de uma comunidade rural;
4) No sistema de relações urbanas prevalecem relações causais, superficiais e de curta duração, em contraste com as relações rurais que são mais estáveis, permanentes, fortes;
5) No urbano o sistema de interação social é maior, o número de contatos mais numerosos, relações mais flexíveis, menos duráveis, e mais impessoais. O sistema de interação rural é menos diversificado externamente e tem um número menor de padrões empregado para várias classes de pessoas. Mas é mais individualizado, vai além da “roupagem social” de um homem e se aproxima ao coração.
Texto 06 - ANDERSON, A. Tendências na Sociologia Rural. In: MARTINS, J. S. (org.). Introdução crítica à Sociologia Rural. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 181-197.
Data: 26 de abril de 2007
O autor faz uma reflexão sobre a Sociologia Rural, ramo da sociologia que pode ser considerado como um dos mais antigos na tradição sociológica. Destaca que esse ramo tem quatro tipos de contribuições: 1) compreensão dos aspectos estáveis e mutáveis da sociedade rural; 2) análises conceituais e construções teóricas de aplicação mais ampla; 3) inovações nos métodos de pesquisa e 4) assistência na formulação da política.
Anderson, entretanto, elabora uma série de problemas relacionados com o exercício profissional dos sociólogos rurais. Primeiramente, ele atribui que, naquele período, década de 60, havia muito pouca articulação entre a sociologia geral e o ramo “rural”. Existia, também, um provincianismo acarretado pela raiz cultural dos profissionais em questão, que causou problemas tanto no nível de treinamentos, como na maturação de ordem profissional.
No item, “A pobreza das contribuições teóricas e metodológicas”, o autor reconhece a importância da Sociologia Rural na formulação do estatuto teórico da Sociologia, entretanto, coloca que na maior parte dos trabalhos “recentes”, os mesmos são rotulados como, simplesmente, “descobrimento dos fatos”. Cita diversos autores que influenciaram o estado da arte em momentos anteriores como: Schuler, Galpin e Kaufman com suas pesquisas de campo e sobre o “informante local” na técnica de estratificação e os primeiros estudos sobre o rural-urbano, além do círculo familiar, que foram realizados por sociólogos rurais. Porém, cita a existência de um “fracasso” em campos como: “comparações inter-societárias” e no desenvolvimento de trabalhos de campo.
O autor apresenta a relação dos projetos que foram desenvolvidos no ano de 1956, ficando evidente o papel dos estudos sobre a difusão de práticas agrícolas e demografia. Cresceu também em importância temas como: educação, sub-urbanização, pessoas idosas, outras sociedades etc. As áreas que foram consideradas mais estáveis, em importância, foram: comunidade, participação social, o trabalho extensionista, estratificação, moradia, atitudes rurais, família e métodos de pesquisa. Em termos da pesquisa, pouca atenção foi dada à história da sociedade rural e, também, à políticas governamentais para o rural.
O texto faz uma reflexão sobre o tipo característico do sociólogo rural e aponta para a cultura da escola agronômica como responsável pelo recrutamento e perfil desses profissionais, encorajando uma “ atitude defensiva auto-destrutiva contra o desdém geral dos sociólogos (...)”. Aponta ainda o isolamento dessa escola e a evidencia, segundo o autor, da perda de identidade da Sociologia Rural frente a outras ciências do campo das Humanas, da Saúde e das Exatas, além da Economia. É evidente, para Anderson, que os Sociólogos rurais ficaram à margem da “teorização” e da preocupação com as “terminologias”, mostrando claramente que este profissional saiu do circuito intelectual da formulação epistemológica para sobreviver na rotina burocrática e vazia das escolas rurais.
Dessa forma, o autor apresenta temas que merecem ser aprofundados para solucionar essa crise:
a) a necessidade de se codificar (descobertas) e sistematizar (conhecimentos);
b) a necessidade de se continuar os projetos pioneiros;
c) a necessidade de se usar de forma mais imaginativa os dados do recenseamento;
d) a necessidade de se transformar a pesquisa aplicada em pesquisa política de ação;
Para concluir, o autor entende que a pesquisa sociológica deve ser integrada à análise econômica e que a mesma deve ter uma visão mais ampla de sociedade. Que deve haver uma participação maior de Sociólogos não-rurais nos foros da Sociologia Rural e que, por fim, fossem contratados (recrutamento) mais profissionais fora do campo rural e houvesse mais e melhores treinamentos técnicos.
Texto 5: Para a crítica da Economia Política (Karl Marx)
Introdução de Jacob Gorender e Introdução e Prefácio à Crítica da Economia Política
Data: 26 de abril de 2007

1- Introdução de Jacob Gorender
O autor apresenta nesta introdução um breve resumo da Crítica da Economia Política de Marx, abordando os tópicos: “Da Alienação ao Valor-Trabalho”, “Materialismo Histórico e Método da Economia Política”, a “Teoria da Mercadoria e do Dinheiro”, “Os Elementos da Teoria dos Salários” e, por fim, “O Fetichismo do Capital”. No primeiro item, Gorender faz um passeio sobre a obra Marxista, as concepções filosóficas e políticas que provocaram a crítica e a formulação epistemológica do autor, tais como Say, Adam Smith, Ricardo, Hegel, Feuerbach e outros, além da influência de seu amigo e colaborador Engels na trajetória de construção teórica do Materialismo Histórico.
Gorender nos ajuda e entender tanto o Prefácio quanto a Introdução (Grundrisse) à Crítica da Economia Política uma vez que é neste material que encontramos de forma mais contundente, os caminhos do método dialético de Marx.

2- Introdução à Crítica da Economia Política (Grundrisse)
Marx nos apresenta alguns pontos importantes das teorias de Adam Smith, Ricardo e Rousseau para discutir as visões dos filósofos e economistas que o antecederam e que atribuíam ao homem individual a origem ou ponto de partida para a busca do conhecimento econômico e social da sociedade moderna. Marx dialoga com a visão de Proudhon que não considera a gênese histórica dessa construção social.
O autor define o campo de análise como sendo a “Produção” num determinado grau de desenvolvimento social e da produção de indivíduos, e trabalha no sentido de mostrar as determinações existentes em diferentes modos de produção. A seguir, Marx aborda a relação da produção com a distribuição, com a troca e com o consumo mostrando que estas categorias fazem parte de um mesmo processo no circuito do Capital e, dessa forma, devem ser analisadas de forma a se entender todas as relações entre suas partes. Como resumo, cito um texto que nos mostra a relação explícita entre produção e consumo: “O indivíduo produz um objeto e, ao consumi-lo, retorna a si mesmo, mas como indivíduo produtor e que se reproduz a si mesmo. Desse modo, o consumo aparece como um momento da produção”. Em seguida, ele nos mostra as demais relações entre os processos de produção, distribuição, troca, circulação e consumo, concluindo que estes processos não são “(...) idênticos, mas que eles são elementos de uma totalidade, diferenças dentro de uma unidade”.
Para terminar, o autor descreve de modo muito claro e conciso o Método da Economia Política ou Método Dialético que, segundo ele, é o método cientificamente exato. A partir daí, podemos entender que o concreto é a síntese de múltiplas determinações e que a dialética exige que se faça sempre o caminho do todo para as parte e das partes para o todo como forma de construir um novo conhecimento.
Na última parte do Grundrisse, Marx aborda as relações entre: Produção. Meios de produção e relações de produção e enumera uma série de temas que deveriam ser desenvolvidos, possivelmente, dentro da obra “O Capital”, e faz um breve comentário sobre a arte. A relação entre a arte grega e a obra de Shakespeare e busca relacionar a arte com o desenvolvimento social.

3- Prefácio
Neste texto, escrito em 1858 e janeiro de 1859, Marx nos apresenta, além do vasto currículo, seu pensamento sobre a mercadoria, a moeda (ou circulação simples) e o capital em geral. Apresenta duas sínteses que podem ser resumidas em: a) “O modo de produção condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual” e “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o se ser social que determina sua consciência”. =FIM=